Hoje, 27 de setembro, é dia do Turismólogo. Ou seja, meu dia. Dia do Bacharel em Turismo. Parabéns pra mim. Amo o Turismo e não vejo a hora de voltar pra ele.
Desde que entrei na faculdade, em 2000, sempre estagiei,trabalhei e fiz tudo na minha área. Cresci profissionalmente no Turismo e sei que tenho um nome a zelar. Sempre tive um prazer imenso em proporcionar uma boa viagem, estadia, dar dicas, cuidar, planejar do evento e infra estrutura urbana.
Ano passado, quando voltei da Holanda, depois de ficar cerca quase 3 anos sem carteira assinada na minha área (em 2008 quando voltei do intercâmbio de Aupair, em 10 dias estava trabalhando no local onde queria, na minha área), voltei pro Turismo - cheia de idéia e peito aberto. Peito e bolso também. Um dos motivos por ter voltado ao Brasil era exatamente o fato de não poder trabalhar e tava "precisada" de trabalho, escala, rotina e tudo mais. 2 meses depois estava trabalhando como Recepcionista Bilíngue num hotel 5 estrelas - hotel esse bem famoso na terra dos moinhos.
Apesar de nunca ter sido muito fã da escravidão hotelaria nos tempos de faculdade (nem das aulas, nem dos estágios e muito menos dos trabalhos), era o que tinha e a equipe era legal e, para o meu curriculum seria ótimo (pois voltando à Holanda, tendo tal hotel como experiência contaria como ponto na hora de correr atrás de um emprego por lá). Acontece que a química não rolava. Não por conta do hotel, mas por conta de satisfação mesmo: financeira e profissional. O salário menor que e a allowance de Aupair que eu recebia na Bélgica e as horas trabalhadas eram mais que o dobro (na Bélgica eu trabalhava 20h/semana, no máximo 25h). A escala 6x1 era cruel. Trabalhar 8:20h/dia de pé, sem poder sentar ou se escorar, de salto e sorrindo, tendo ao meu lado alguém sem experiência em nada no Turismo e na vida era demais para esta pessoa que já tinha, na época, 28 anos, graduação, especialização, experiência na área, 3 línguas no bolso e expectativa zero de crescimento.
Até que num dia bem triste, alguém que você gosta muito e admira, mas não vê há pelo menos 2 anos, vira e te fala: você merece mais. Muito mais. Acredite no seu coração, lute e vá atrás. Coisa de Deus!
E assim foi. Meu coração queria um trabalho bom: que me desse tempo e um bom dinheiro. Não precisa muito, mas algo suficiente para que eu pudesse pagar minhas contas, comprar minhas coisas, guardar um pouco e me dar certos luxos (a.k.a.: visitar o Querido e ter tempo livre pra fazer o que eu quisesse qualidade de vida). Sendo assim, 9 meses depois de entrar na hotelaria, lá estava eu fazendo treinamento em Macaé, começando minha vida offshore - desisti da satisfação profissional e fui ser rica - obedecendo minha mente e coração.
Minha mãe é Pedagoga e cresci dentro de escola e ouvindo: minha filha, não seja Professora. Pois bem, cá estou eu: sou Teacher. Quer dizer, sou English/Portuguese Instructor: dou aulas de inglês e português em plataformas de petróleo. Tenho uma escala de 14x14 - 14 dias embarcada e 14 dias em casa fazendo o que me der na telha (os dias embarcada até passam rápido - pelo menos pra mim - dou aulas de 7am às 9:30pm com pausa pra almoço e jantar, mas os dias off simplesmente voam) e um bom salário.
Se eu gosto? Gosto. Se quero ser isso pra sempre? Não. Não tenho tesão em dar aula, prazer profissional. Aprendi a gostar; o que é bem diferente. Offshore não é pra vida toda. É bom, mas é ruim. Mas Deus concedeu o desejo do meu coração, o que eu pedi, Ele me deu. Fiel que só Ele.
Nunca dei aula na minha vida (e nem quero dar) e, por conta disso, o treinamento que tive foi essencial para me dar uma idéia de como controlar uma turma e passar informação. Dar aula para adultos - em grande maioria peão (isso mesmo, ogro!!), ou para alunos que mal terminaram o segundo grau em português (tem de tudo offshore) e/ou gringos que falam apenas o inglês e sofrem o mesmo tanto ou mais para aprender português - em alto mar, pessoas que trabalham 12h/dia e têm aula depois do horário de trabalho, sempre pressionados, em alto risco de acidente...não é fácil. É um grande desafio. Mas com muita gargalhada a gente chega lá.
Vê-los chegando e compartilhando alguma coisa que entenderam na língua que estão aprendendo, ou algo que aconteceu no período em que estiveram em casa ou que conseguiram falar é mega gratificante. Me faz acreditar que meu objetivo - ensinar - foi alcançado.
Dia desses durante uma pausa pro lanche, no Coffee Shop (coffee shop é onde rola toda e qualquer a fofoca, muita gargalhada, sobre tudo e sobre nada no mundo offshore regado de muita comidinha que só engorda), um aluno veio me falar que conversando com o Supervisor sobre um probleminha que havia acontecido, o cara falou pra ele que "- aaah, it's ok, shit happy!". Ele ficou feliz pq entendeu: "poxa, shit é merda. Happy é feliz. Conclusão: merda feliz. Poxa, meu Supervisor tá falando que deu merda mas tá tudo tranquilo: merda feliz." E lá foi ele dar o feedback pro outro setor e disse: "o supervisor disse que shit happy". Até que um abençoado que fala inglês virou e perguntou: que raio de shit happy era aquela e ele explicou toda a saga novamente. E foi explicar e todos do tal setor caíram na gargalhada (pessoal de marinha fala inglês) e explicaram que o Supervisor dele não disse "shit happy" e sim "SHIT HAPPENS" e explicou o significado da expressão.
Eu sei que como Teacher não posso rir de um aluno, mas na hora que ele começou a me contar, disse shit happy e a conclusão do significado da expressão que ele mesmo criou, eu dei altas gargalhadas (como eu não sou Educadora por natureza, rio mesmo! péssimo exemplo de professora eu sou!).
O gerente da plataforma, um ex-fazendeiro inglês, tem aulas de português e sofre, xinga e bate na mesa todas as vezes que vamos conjugar qualquer verbo. Já o Capitão, um americano do Texas que é a cara do Visconde de Sabugosa, disse que só iria às aulas caso eu prometesse que não entraríamos em conjugação de verbo. Promessa não feita e aluno assíduo - reclamando 1000 vezes, como hoje, quando descobriu tenho, tem, temos e têm era o mesmo verbo.
Trabalhar no meio de muita água, vestindo um macacão que te deforma, dividir o quarto com outras 3 pessoas (e uma que ronca absurdamente na cama debaixo nesse exato momento) e o banheiro com 7 mulheres, viver perigosamente (hello, estamos falando de helicóptero, plataforma de petróleo, gases...), numa bomba relógio: é uma shit.
Mas saber que Deus é perfeito e que foi Ele que concedeu o desejo do coração e me presenteia com um visual lindo praticamente todos os dias, me deixa muito happy!