Até os 7 anos de idade eu tinha pânico de cachorro. Não era medo, era pavor mesmo. Não podia ver um cachorro do outro lado da rua que já agarrava quem estivesse ao meu lado. Como sempre morei em apartamento, não tinha problemas com cães na "vizinhança". Mas quando íamos a Arraial do Cabo, por exemplo, na casa de praia, sempre visitávamos um casal muito amigo dos meus avós que tinham 3 beagles e ir lá era um desespero. Eu sempre dava bafão, subia no sofá, gritava, chorava...um caos. Mas eu, como criança, era atração pros cãezinhos.
Aos 8 anos, fui com minha tia na casa de uma amiga dela que tinha uma fêmea Akita que estava com os filhotinhos de 30 dias, no máximo. Uma casa enorme, um quintal gigante, as outras crianças que deveriam estar lá não estavam, os brinquedos só de meninos... me restou ficar no quintal. Os filhotes estavam numa caixa gigante brincando e lá fui eu bem devagar e sozinha brincar com eles. Não me lembro exatamente como foi essa aproximação, mas fecho os olhos e vejo perfeitamente a cena da minha mini pessoa sentada no chão com uns 5 filhotes em cima de mim e a mãe Akita deitada pedindo um certo carinho. Naquele dia curei - sozinha - meu pavor por cachorros e decidi: também queria ter um cachorro.
A aproximação com outros cães foi surgindo gradativamente. Mas não dava bafão e, pra alegria dos meus pais, eles podia visitar amigos e conversarem tranquilamente sem euzinha no colo.
Mas sempre tive medo de cachorros com histórico popular agressivo: Pitbull, Rottweiler, Fila, Doberman... Me lembro que uns amigos tinham uma Doberman, chamada Minnie, que eu só via de longe e qndo estava dentro do canil e, de uma família de 5, apenas 3 se davam bem com a Minnie. No Natal e Ano Novo geralmente estávamos em Arraial - o apartamento deles era embaixo do nosso - e em um dos anos, o Tio J. chegou do RJ com a notícia que Minnie tinha morrido porque sabe lá como ficou presa no terraço e teve um ataque do coração por conta dos fogos do Reveillon.
Foi a primeira vez que vi alguém chorar por conta de cachorro. Eu tinha uns 11 anos, eu acho. Foi estranho, mas não liguei muito. Nem eu nem a M., "dona" da cahorra que não gostava muito. Pra gente era um motivo para andarmos tranquilamente no quintal sem a Minnie por perto.
O tempo passou, mudamos de casa, cidade, Estado mas a vontade continuou: queria ter um cachorro. Com a desculpa de morarmos em apartamento, eu ser muito nova...não alcancei o obejtivo. Até que, aos 20 anos, ganhei de presente de uma das minhas melhores amigas o Toy, meu Lhasa Apso gostoso toda a vida. Que chegou (de propósito) 2 meses após a separação dos meus pais. O Toy foi mais que um presente, ele chegou, e surpreendeu minha mãe que deu de cara com ele quando chegou de uma viagem ao RJ e foi paixão a primeira vista.
Toy sempre foi muito mimado, mas nada comparado aos mimos que os cães tem aqui na Holanda. Nas bandas de cá os cães são caros, caríssimos. Além das mais variadas raças. Não sei se vocês lembram da abertura da Tv Colosso, mas por aqui eu já vi andando nas ruas todos os cachorros que aparecem na abertura do programa (hahahaha). A quantidade de parques espalhadas pelos bairros são de propriedade, praticamente, dos cães. Lá eles correm, treinam, fazem o que querem. E, o melhor, espalhados pelos parques você encontra latas de lixo com saquinhos plásticos (pelo menos aqui em Maastricht tem) para as necessidades do seu cachorro.
Cachorro aqui também tem privilégios. Anda de trem (a primeira vez que vi foi um Yorkshire comendo e bebendo tranquilamente num assento ao lado do meu, sem contar nos Labradores que tomam conta do corredor - que já é estreito - e ficam lá de boa, sem latir só curtindo a viagem), tram, metrô. Vai à restaurantes, entra na farmácia, na loja de calçados, viaja no bagageiro do carro, vai na cestinha da bicicleta, tem um carrinho de bebê especial só pra ele e só não entra no supermercado. Vai até festa de aniversário de adulto (um amigo do Querido trouxe o cachorro dele pro aniversário do Querido - contra minha vontade - : aqui em casa [apartamento] e com umas 30 pessoas dentro, fiquei com dó do cachorro que ficou quieto debaixo da mesa).

Os pais da minha host tinham um Berner Sennenhond, a Wanda (eu ainda terei um Berner, é lindo demais!). Wanda é um doce. Foi me buscar na estação e foi a Aupair nr.2 quando fomos para Gstaad, na Suíça em dezembro 2007/2008. Pra onde eu ia com as crianças, Wanda ia atrás. Só carinho comigo e com as kids. Mega obediente. Mas não só a Wanda. O velho do Diesel, um Golden Retriever da irmã da host também. Só não era dos mais amigáveis porque já estava beeeeeem velhinho.
Os cachorros holandeses são bem obedientes. A galera curte treinar a cachorrada tipo Dog Whisperer (um programa da National Geographic, acho que o nome em português é "O Encantador de Cães"). Mas também, tem que curtir treinar mesmo para dar valor a grana investida para ter um cachorro aqui. Cachorro é caro. Ainda mais de raça (nunca vi um vira lata por aqui, ou raça desconhecida) e com Pedigree.
Cachorro (e gato também) na Holanda tem chip, passaporte e tem que estar em dia com toda a vermifugação. Além do dono ter que registrar o cachorro na prefeitura pagando um valor que varia entre 80€ e 100€. E caso vc tenha um segundo cachorro, o valor aumenta. E assim sucessivamente. O valor, geralmente, é a partir de 400€: raças pequenas, com pedigree, conhecendo a procedência e de criadores de verdade. Mas nem todas as raças pequenas são as mais baratas. Ano passado, o sobrinho do Querido ganhou de um amigo o Gregor - um Chiuaua - de aniversário. Fomos checar o preço e descobrimos que ele custava cerca de 1.400€. Gregor foi embora e vei Gilbert, um Basset Hound. Gilbert custou nada mais nada menos que 900€ e foi comprado de criadores em Zeeland (isso pq a Cunha mora aqui em Limburg, ou seja, 186km longe daqui).
Mas sei que Golden Retrievers, por exemplo, não custam menos que 900€. Ter um cachorrinho saudável custa e custa muito (muito mais que no BR, por exemplo). Como em todos os lugares, há golpistas para essa área também. Muita gente vende cães mais baratos, sem pedigree e tudo mais, mas que são criados em fazendas e com um background repleto de doenças. O que vai te custar mil vezes mais caro quando você pegar a conta do veterinário - que, obviamente, não é nada barato.
Väos, um Hollands Schapendoes (derivado de Sheep Dog), mais conhecido como The Hairy Dog ou, cachorro da minha sogra, tem 5 anos e há 2 semanas teve que fazer uma cirurgia de 3h por conta de pedra nos rins que não estavam nos rins mas escondida em algum lugar, deu-nos de presente uma conta de 830€. Toy que fez uma cirugia mais complicada esse ano e ficou durante 1 mês entre clínica, hospital e não sei mais o que, não chegou a tanto.
Enfim, ter cachorro na Holanda é artigo de luxo. Mas como tem solução pra tudo, há várias casas de adoção - asilo para cães - onde você pode se inscrever, fazer uma entrevista e escolher o seu cãozinho que já vem todo trabalhado na vacina, com chip e passaporte. Muitos cachorros vem de fora da Holanda (Espanha, Grécia...) para serem cuidados aqui e colocados para adoção.
Enfim...cachorro é (sempre) caro mas é um amor sem fim! E eu tô morrendo de saudade e doida pra agarrar muito meu Toyzinho, catoiiiiinho fofo!!!
Se tem uma coisa que me faz tremer aqui na Holanda é saber que tenho uma festa para ir.
Tudo começou quando tinha 3 meses de Holanda e uma família amiga da minha host family me convidou, em abril, para um BBQ (que eu acho uma falta de respeito chamar de churrasco, e nem vou entrar no mérito de explicar, pq né?! não dá!) que aconteceria dia 22 de junho.
Na hora eu achei engraçado. Pensei: "como assim? Sabe Deus (literalmente) qual será a temperatura, convidar com 2 meses de antecedência e blablabla mas quando vi a reação da pessoa fiquei foi sem graça. Expliquei que no BR é tipo: hj tá sol, vamos fazer um churrasco! Ou, se der sol no sábado, vem pra cá pra gnt fazer um churrasco.
Enfim, passaram-se os 2 meses, o dia da festa chegou, o tempo não estava dos melhores e a festa me fez ter um trauma que será eterno. Pessoas reunidas ao redor da mesa, uma música péssima ao fundo, um churrasco de hamburguer, salsicha e costela de porco. Sem dizer que ao chegar, por volta de 18h, a entrada foi café com 1 biscoito. E, como era num sábado - minha folga - inventei uma desculpa e fugir da festa antes dos meus hosts.
Isso, sem contar, a festinha de 2 anos do meu kid, em maio/05. Eu, A brasileira que ama festa infantil, dei várias dicas do que fazer, fiz brigadeiro, enchi bolas e coloquei no jardim...E quando me empolguei demais, a host veio com um balde de água fria me convidando 5 crianças e 15 pais. Cantando parabéns com um pedaço de torta de cereja beeeeeeem holandesa e deixando os brigadeiros para eu comer sozinha, pq, é doce demais. Isso pq minha host family naquela época era franco-italiana.
O tempo passou e, como aupair, as festas eram mais infantis. Mas, mesmo assim, difíceis de engolir.
Quando voltei para o verão com minha host family de Amsterdam, encarei 2 aniversários. Estávamos na França, sol, praia e alegria. Mas nada digno de uma festa para as kids e sim, para os pais. Os 5 anos da V. foi comemorado com um passeio no barco do avô levando a gnt para uma das praias baladas próximo a Cannes. O porém? V. tem necessidades especiais, não pode andar sozinha e ficou sentada no meu colo o tempo todo. O almoço por lá regado a peixe, nada agradou o paladar das crianças, que comeram nuggets e batata frita na praia. Os pais e os avós juram que ela amou a festa. Eu bem sei que ela gostou da farra de sorvete qndo cantamos parabéns para ela no jantar em casa. Os 3 anos do N. tbm não foi dos melhores, mas sei que ele amou: presentes e 1 velinha para ele assoprar.
Ano passado, já com o Querido, as festas, obviamente, aumentaram. A primeira foi a da cunhada caçula. E mais uma vez a tal mesa estava lá presente, várias cadeiras ao redor, música ao fundo, chips, cerveja, amendoim...e só. Aos que chegaram mais cedo, café! (!!!!). E a festa foi assim a noite toda. Eu e uma amiga brasileira que era aupair no mesmo bairro dos pais do Querido, demos de presente 2 garrafas de cachaça: 1 para fazer caipirinha na hora e outra para ficar de presente. Fizemos e aí sim parece que a coisa começou a andar. Levando em consideração que eles não deram mto conta da caipirinha...
Já o aniversário do Querido, ano passado, foi um pouco mais agitado. Mas acho que foi pq não servimos café no início...
2010 chegou, a vida de aupair acabou, hj em dia, com o Querido, os aniversários triplicaram. E a vontade de não ir a eles, também! Esse ano, o niver da cunha caçula foi um desastre. Após 1 semana de sol intenso, a chuva caiu pra valer em maio colocando todo mundo pra dentro de casa e nos levando pra casa por volta de meia noite. Entre junho-agosto, verão, foram vários "churrascos" e eu morrendo de fome e explicando a todos o que é um churrasco de verdade - dessa vez com a ajuda do Querido que, por ter ido ao BR em dezembro do ano passado - tbm não chamava o BBQ de churrasco. Como agradecimento ao convite, sempre levava uma sobremesa brasileira: mousse de chocolate, brigadeirão, mousse de limão...fazendo com que uma parte gostasse muito e a outra, educadamente comia apenas 1 pedaço. E olha que eu só coloco metade de açúcar que qualquer receita pede. Porque o paladar desse povo é complicado.
Mas mal sabia eu o que estava a me esperar. Do início de setembro, até hj, 10 de outubro, foram 10 festas (entre aniversário, formatura e festinhas no apê). Sim queridos, tremi!
No aniversário de 3 anos do sobrinho do Querido, só a família e mais ninguém (3 crianças J. C. M. e os avós, Querido/Eu, Cunha Caçula/Namorado)! E olha que ele vai pra creche e tem vários amiguinhos por lá. A festa? acho que de infantil só teve os brigadeiros e docinhos de côco que eu fiz (tinha feito no niver do outro sobrinho em julho e eles amaram) e uns cupcakes coloridos. De resto: café e limburgsevlaai (foto ao lado).
No mesmo fim de semana outros 3 aniversários. Teve de tudo: jantar com pessoas estranhas ao redor, sentados ao redor da mesa com bitterballen (salgadinho holandês que eu até gosto) com a tv ligada e pessoas assistindo um programa de tv a la Show de Calouros chamado My Name Is... e por último uma festa confusa: muitas pessoas, pouca bebida e zero de comida com música alta e muita gente em silêncio.
Entre festas de formatura - diferentemente do Brasil, onde temos baile e aquele catatau de festas, aqui não tem nada disso. Cada um faz a sua festa de Geslaagd (graduação) em casa - se quiser. Em junho foi a minha primeira Geslaagdfeestje, da prima do Querido. Terminou o que chamamos no BR de segundo grau. Poucos amigos da escola, muitos amigos de futebol e vááááários adultos. O auge das festas aqui é você alugar uma biertap. Tendo uma dessas na sua festa você ganha um certo status. Quanto mais cara a cerveja, obviamente, mais status vc adquire.
Em setembro foi o Geslaagdfeestje da cunha caçula que terminou o Mestrado e resolveu dar uma festa temática: Black&Pink - que tirou a família toda do alinhamento por tamanho stress que causou a todos - não pela festa em si, mas por ter feito muito barulho por nada. A princípio a idéia era comprar pizzas para o povo comer por volta de meia noite e a ninguém ficar com fome. (!) Pergunto eu a você, meu/minha caro(a): quem encomenda cerca de 20 pizzas para uma festa quando não se tem um forno apropriado para assar pelo menos 5 ao mesmo tempo? E você tem nada mais nada menos que cerca de 80 convidados?
Depois de muita confusão, chegou-se ao consenso de servir o que foi a nossa (minha/Querido/cunha2) idéia: pães, torradas, biscoito e vários tipos de patês e queijos, deixando a disposição de quem quisesse. Uma vez que já teríamos bolo e cupcakes que eu faria (à encheção de saco pedido da dona da festa, a cunha caçula).
Depois de muito planejamento, idéias dadas e rejeitadas acho que, finalmente, fui à uma festa boa!
Semana passada foi aniversário do Querido.Como outubro, normalmente, está mais frio e tudo mais, minha sogra fez um caldo típico daqui de Limburg: champignon au scargot. Uma delícia. Como nem todo mundo gosta, colocamos mais uma vez os patês, pães, chips, tortillas além dos cupcakes a là IT, profissão do Querido. Maaaaaaaas, alguns convidados chegaram cedo demais e eu, que terminava de me arrumar não pude impedir a atitude impulsiva do Querido, que é holandês: servir café pra quem acaba de chegar (sendo que compramos umas 5 caixas de cerveja, vinho tinto, rosè, prosecco, refrigerante...).
A mesa, que tinha recebido uma toalha linda e branca lavadinha, passadinha e bem cheirosa, tomou um banho de café que o convidado que chegou 45min antes do horário deixou cair em 5min de presença nessa casa que, definitivamente, me fez proibir o café em qualquer festa de aniversário! Mas, no geral, a festa foi um sucesso. Nada boring...apesar do café na início. Os mais velhos sentaram-se à mesa e eles eram poucos (sogritchos e ex-vizinhos que viram o Querido crescer) e todos ficaram em pé, como em qualquer festa que se preze.
Mas, engana-se você, que acha que minha tortura acabou. Até dia 5 de novembro, ainda tenho outras 4 festas para ir. Entre elas, a do sogritcho hoje a tarde: com direito a muito café e limburgsevlaai, de cereja e pêssego.
Ê laiá!