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terça-feira, 23 de abril de 2013

Stick to the plan!

Quinta feira passada o dia todo antes de dormir o plano para o dia seguinte era:  acordar 15min mais tarde pra  sem querer querendo perder o primeiro bus poder pegar o ônibus mais tarde e, consequentemente, chegar 14min atrasada no trabalho porque não ia fazer a menor diferença. Era sexta feira e nesse dia todos param de trabalhar as 16:30h por conta do happy hour (biertje, wijntje e bitterballen) na cantina da empresa.

Aí você me pergunta: "mas já começou a sabotagem?" Eu explico: não tem nada pra eu fazer por lá e eu fico tipo assim o dia todo na frente do computador lendo e relendo o manual que, a essa altura, deixou de fazer qualquer sentido:
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todo o sono do mundo!
Oficialmente eu fui contratada por conta de um contrato que está/estava pra começar a qualquer momento de abril. Porém, contanto, todavia, até agora não temos  notícias se o tal contrato vem ou não. "Anemia", minha "supervisora" (sempre que ouço/falo o nome dela sai algo parecido com isso) sairá de férias semana que vem e eu e a "Colega" ficaríamos por conta. Acontece que depois de 1 semana lendo manuais e observando procedimentos, quando chegou minha hora de fazer alguma coisa, fazia por apenas 1h: "- Vamos com calma / não precisa ter pressa / é step by step mesmo / aos poucos você vai pegando". E eu acreditei. Até porque, realmente é muita coisa. Mas 1, 2, 3h de trabalho por dia!?!? Não necessariamente 180min seguidos. Eu, na minha ingenuidade, penso que estão todos absolutamente ocupados.

Essa semana a Colega tirou um dia de folga e eu cheguei jurando que ia trabalhar bagarai. O pouco que estava apta a fazer, se multiplicaria e aprenderia mais e tooooooda aquela empolgação de quem tá começando. Pois bem, quebrei a cara. Das 8h de trabalho, trabalhei exatos 73 minutos. E não fiz mais porra nenhuma nada. Fui ao banheiro umas 14 vezes sentar na privada, dar aquela über nap e lavar o rosto. Perguntei o que tinha pra fazer, em que podia ajudar e as coisas chegava picadas.
E assim foi a semana toda. Só comigo. Porque até o "Groot" - estagiário de 2mts que senta na minha frente - tá mais ocupado do que eu.  Quer dizer, scaneiei 185 documentos (se não tem nada pra fazer, a gente conta), passei a tarde na Recepção lendo sobre dados e descobrindo idade da galera da empresa ajudando no arquivo de documentos pessoais, preenchi uns documentos pra outros setores. Mas pro meu setor, meu trabalho, para o que fui contratada, nada, niente, zero, niks.

Ontem de manhã:
Eu: "O que tem pra fazer? Posso ajudar em alguma coisa?"
Anemia: "Hummm...excelente perguntas. Mas infelizmente não tem nada pra você fazer."

Lembra do mini-flashback dos Normais? Comigo acontece mais ou menos assim, mas no estilho mini-fastforward. Ao ouvir tal resposta - depois de dias coçando o saco e dormindo na frente do computador - me vi pegando minha bolsa e falando "beijos, me liga quando quiser que eu trabalhe, porque se é pra não fazer nada aqui, prefiro não fazer nada em casa que é mais confortável." Mas foi por um milésimo de segundo. E por isso voltei pra minha cadeira, abri o manual e fiquei planejando o dia de hoje. A tarde o "Head PP" veio todo felizão e me deu 40 páginas de trabalho! Yey! Nem preciso de dizer que adorei né?!
Entreguei tudo pronto no final do dia e ele me pediu para, caso tivesse tempo (aaah, bobinho) que o ajudasse porque ele tinha muita coisa pra fazer e eu poderia ajudá-lo. Quase o agradeci de joelhos mas, ao informar Anemia ouvi que não poderia pois, a partir de hoje iria passar uma temporada em outro setor, já que lá tem muita coisa pra ser feita. Vibrei!

Pois bem. Lembram do meu plano acima?
Então? Acorde 15min depois. Me arrumei, preparei a marmita, Querido mais dormindo do que acordado, vendo as news falou que, apesar do céu azul do lado de fora, era pra levar o guarda-chuva porque ia chover e... e...quando deu a hora normal do ônibus a consciência pesou e saí desesperada correndo e bolsa aberta e fone caindo do ouvido e corre... e... cheguei no ônibus paguei sentei on time! Ufa! Sentada, refeita, procuro o celular na bolsa e...e...e...CADÊ O CELULAR!? Não que eu vá ligar pra alguém, mas minha internet é algo primordial nessa vida de ir pro trabalho fazer PN. Pra que meu Deus, pra que!?!? Pelo menos o céu tá azul.



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oh Lord, como ficarei um dia TODO sem meu celular?!
Anemia: Sorry, mas hoje você não vai pro outro setor, eles estão ocupados e blablablablabla você fica por aqui, você fica por aqui, você fica por aqui...(repete na minha cabeça 748 vezes em eco). Senta aí e se fode mata! (essa parte ela não falou, mas foi a tradução que fiz na minha cabeça da primeira frase).

1h depois sentada vegetando, olho pela janela e todas as nuvens do mundo pairam sob a cidade. Oooh shit! Passei direto pela cesta de guarda-chuva e ele ficou lá - provavelmente rindo de mim saindo correndo desesperadamente fora da hora que planejei acordar e fazer todo o meu plano.

Corri loucamente. Cheguei no horário. Não fiz PN o dia todo. Não trouxe o celular. E vou voltar molhada pra casa. Oooooh shit!!! Aprendizado do dia: ALWAYS stick to the plan!

Querido, vendo todo meu desespero + zero guarda chuva e buienradar.nl gritando chuva pra antes, durante e depois do meu horário de saída, foi me buscar no trabalho! Ufa! A idéia do jantar era um stroganoff de frango. Não tinha creme de leite em casa. Ainda dentro do carro pensei em outras opções para o jantar. - Always stick to the plan, babe! Desci no meio do caminho e fui direto pro mercado antes de chegar em casa. Stroganoff saiu e ó, só sucesso!


terça-feira, 2 de abril de 2013

I got a job!!

Eu sou uma pessoa orgulhosa! Orgulhosa no bom sentido. Tenho orgulho de onde eu vim, o que conquistei, de como foi difícil,  das lágrimas, sorrisos, explosões de sentimentos. Tenho orgulho de ter ser da Baixada Fluminense e ser quem eu sou hoje! Adoro trabalhar - adicione a isso a rotina de ir pro trabalho e reclamar dele também. E faço questão de ter meu dinheiro e fazer parte das contas do fim do mês. Faço isso desde os 17 anos.
Dito isso, vamos ao post.


Quando Querido disse que daria entrada no visto, lembro-me claramente que a primeira coisa que eu falei foi "E o meu emprego?". A resposta - dele - foi simples: "Aaaaah, você arranja um aqui". Isso dito, emoções a parte, papelada, dinheiro indo embora, férias, chegada, frio, papelada (aqui) toda ok, chegou a hora: solliciteren!

O prazo que geralmente temos pra toda papelada (identidade, sofi nummer, permissão de trabalho e blablabla) ficar pronta é de até 3 meses. Considerando que já fui Aupair nas bandas de cá, devidamente registrada na prefeitura, documentação em ordem e muita boa vontade e excelente atendimento que tivemos no IND, em 20 aqui eu já estava apta pra abrir conta em banco, fazer o seguro saúde e apta pra trabalhar. Isso tudo porque tivemos as festa de final de ano entre minha chegada e fomos agendados pelo próprio IND pra 20 dias depois.

Antes de chegar aqui eu tinha previsto que só poderia começar a trabalhar depois de 3 meses. Sendo assim, não faria muita pressão - eu sou o meu pior inimigo nesses casos - e viveria a vida estudando e caçando emprego nesse período. Mas, como disse acima, aconteceu o contrário.  Sendo assim, no mesmo dia que cheguei em casa com o beslissing comecei a aplicar para as vagas em sites que já vinha visitando e sabia como que estavam disponíveis, de acordo com meu perfil. 

Uma das coisas que minha mãe me falava era: "filha, por favor, self control enquanto você não arrumar um emprego" porque eu sou dessas que surta - apesar de nunca ter ficado mais de 2 meses desempregada, nunca fui demitida e tive ótimos empregos na minha área e fora dela. 

A primeira semana de nãos até que desceu bem. A segunda nem tanto. Na terceira os primeiros sentidos de preocupação chegaram. Refiz o maldito motivatiebrief, revi as opções de trabalho. Os nãos eram explicados por "seu holandês é muito bom, mas não é fluente". Era verdade e não tinah nada que pudesse fazer a respeito disso. 1 mês e pouco de vida nova na Holanda e, por mais que falasse apenas em holandês com Querido, família e na rua, não seria o suficiente. Conversando com algumas amigas e lendo blogs de quem teve o mesmo processo que eu, 1 coisa apenas se confirmava: primeiro estuda e arrasa no holandês e depois procura emprego. Pelo menos 6 meses dedicados ao estudo da língua. A única coisa que pensava era: "Eu? 6 meses? Só estudando? Sem trabalhar? Sem conhecer outras pessoas e fazer a minha vidinha aqui? Sem meu próprio e suado dinheiro? Mas de jeeeeeeeeeito nenhum!" Que algo fique claro aqui: eu não tenho nada contra quem faz/opta por isso. Mas pra mim, por motivos ditos lá em cima, não rola. Mas, sem subsídio do governo, a última coisa que EU queria era dar de presente mais uma conta pro Querido. Oi, orgulho!

Visitei o primeiro uitzendbureau - agência de trabalho - e o presente que ganhei foi: "ótimo CV, mas na sua área você precisa falar holandês fluente - apesar de já falar muito bem, juntamente com o inglês, português e arranhar bonito no francês e italiano - mas, sem o holandês, o que eu tenho disponível pra você aqui é uma vaga de Tiazinha do Banheiro para antes, durante e depois de uma feira internacional que vai ter aqui. Topa?
Saí da agência sem sentir nada. A única coisa que pipocava na cabeça era: "eu sou melhor que isso, eu sou melhor que isso, eu sou melhor que isso. No Brasil, aqui e/ou em qualquer lugar."

Lembro-me de ter lido muito tempo atrás no blog da Line algo que ficou marcado pra quando eu chegasse aqui; era algo do tipo: "não se contente com pouco, se você se limitar com pouco, você terá pouco". Fazia um dia lindo, com muito vento e antes das lágrimas caírem, ao andar pra casa, o vento tirava de mim. 

O tempo passou, os nãos invadiam meu inbox, o meu dinheiro da recisão acabou e minha necessidade de fazer algo, me sentir útil só aumentava. Inventava desculpas pra mim mesma, principalmente quando acordava e via neve do lado de fora do tipo: pelo menos estou dentro de casa com essa neve e frio todo. Mas no fundo eu não me convencia.

Até que no início do mês passado surgiu não só uma, mas duas vagas de Kamermeisje (camareira) em hotéis aqui perto. Lendo e ouvindo sobre como tá difícil arranjar um emprego na Holanda - para holandeses e expats - pensei, aaaaaaah, a Cunha 1 é Thuisverzoging ("faxineira") e já foi kamermeisje, a Cunha Caçula também. Ser camareira não mata ninguém e posso fazer isso até achar algo melhor, na minha área e $$. É part time, vou chegar em casa e aplicar pra outros empregos. Convencida e necessitada (não de dinheiro, não mesmo, mas de fazer algo), escolhi o mais próximo (ambos pagavam a mesma coisa/hora) e fui. Fiquei 2 dias apenas. No primeiro dia, além de chegar em casa acabada eu só fazia chorar. Eram 20min da estação até o hotel + 6min de trem até aqui em casa e eu só fazia chorar. Mais uma vez o pensamento vinha: "eu sou melhor que isso, eu sou melhor que isso, eu sou melhor que isso." Dessa vez adicionado de: "eu não preciso passar por isso! Eu estudei pra não precisar fazer isso! Estudei pra ser alguém na vida e trabalhar com meu cérebro".

Minha mãe, que sempre me incentivou a fazer e correr atrás pra me tornar uma excelente profissional, me apoiou no início mas escondeu que a pressão tinha subido por me ver me submetendo a algo que ela prometeu não ser quando tinha 12 anos e desde os 9 trabalhava em casa de família. Hoje, Pedagoga, com especialização, pós graduação, começando a segunda agora, aos 53 anos, ela não queria isso pra filha dela. E com ela no Skype, joguei pro alto o hotel. Louca né?! Né! Oi, orgulhosa?

Mais uma vez repito: nada contra quem trabalha. Pelo contrário. Desde a escola sempre tive um respeito absurdo pelas faxineiras (eu vivia na escola, lembra? filha da pedagoga!) e no hotel, só dava as minhas gargalhadas com as camareiras, fazendo bagunça - geralmente - onde não podia. Mas enfim, EU não nasci pra isso.

Mas aí Deus...aaaah Deus é tão bom! Mas tão bom que ouviu o desejo do meu coração e fez a obra completa. Claro que no tempo dEle, do jeito dEle, dando-me o que é melhor!
Acabei de chegar do meu primeiro dia de trabalho, com contrato assinado, sem ser por agência de trabalho - caçando vagas na internet -  um salário excelente, queimando os neurônios, na minha área, minha paixão - aviação - perto de casa - quando a primavera resolver chegar do lado de cá, em 25min de bike estarei lá, por enquanto, de ônibus, em 10min estou na frente da empresa - segunda a sexta, horário comercial, falando holandês (olha como pode, meu holandês só melhorou), inglês e quando necessário português, já que, entre os contratos com clientes, existe contrato com Brasil e Portugal. Apesar do frio de 1C ao sair de casa hoje, o sol já brilhava - e assim ficou o dia todo - e a tendência é só melhorar.

Pois é! Eu, brasileira, no dia que completei 3 meses de Holanda, estava empregada! Na verdade tive duas oportunidades: aviação e hotelaria - Recepcionista Líder no mesmo hotel onde trabalhei no BR, só que aqui. 
Mas, como a aviação confirmou e o hotel - via uitzendbureau (odeio esses caras!) - não ligou nem pra dizer que não rolou...prefiro seg/sex em horário comercial do que ser escravo da hotelaria, novamente (mas caso a aviação não tivesse aparecido, hotelaria seria, sim senhor!)

Não venha me dizer que eu dei sorte porque eu não dei sorte! Sorte é car&%#o!!!
Eu corri atrás, liguei, enchi o saco, escolhi, fiz um bom CV, melhorei o motivatiebrief e acreditei em mim: minha linha de corte foi a minha realidade profissional. Oi, orgulhosa!?

Agora é dedicação ao trabalho, ler ler ler, estudar estudar estudar todos os formulários possíveis da empresa, achar um curso noturno de holandês e welcome back à classe dos trabalhadores!

Enfim, leu esse testamento? Agora me julgue se quiser.
Pra bem ou pra mal. Tô bem feliz e orgulhosa de mim mesma!

sábado, 20 de outubro de 2012

To Sir, with love.

Segunda feira, 15.10, foi dia dos professores.

Eu nunca tive vontade de ser professora. Minha mãe é Professora e cresci ouvindo, por conta dos perrengues que ela passava (salário baixo, correria sem fim, muitos e muitos alunos, sobrecarga de trabalho) para nunca ser professora. E, com livre acesso às escolas, quadros, corredores de qualquer escola onde minha mãe trabalhava, o quadro negro e giz eram meus. Enquanto esperava mamãe nas reuniões, eu reinava numa escola de verdade só minha. Isso era o máximo que eu brincava de escolinhas.


Mas, como diz Joseph Climber, a vida é uma caixinha de supresas e cá estou eu: Teacher.
Não tenho coragem de me chamar de professora, até porque, nem no meu contrato está professora, mas sim, Instrutora. Praticamente ninguém na sonda me chama de Professora, mas sim de Teacher. 

Hoje, com 9 meses de embarcação, posso dizer que estou acostumada a me chamarem de Teacher - só me chamam assim aqui, meu nome é esse - mas é algo que acaba imediatamente quando coloco meus pés em terra. Volto a ser eu mesma.

Dia 15 recebi algumas felicitações pelo dia dos professores, mas confesso que fiquei bem sem graça em relação a isso. Não me vejo professora, não sinto prazer em ser professora. Hoje, me vejo como alguém que está ali, em sala de aula, to share the knwoledge e nada mais. Eu não estudei pra isso e não passo por 1/3 do perrengue que os professores da vida real passam. Aqui, eu sou apenas a Instrutora. A ponte entre expats e brasileiros por conta da língua.

Não. Não estou desmerecendo professores de inglês, pelo contrário - sou imensamente grata por aqueles que me ensinaram a amar e estudar a língua que já me levou a tantos lugares e a conhecer tanta gente diferente. Mas EU não me sinto honrada em ser chamada de Professora. Principalmente pelo motivo de estar exercendo tal função agora (Elvis falava: one for the money, two for the show). Sempre vi a função de English/Potuguese Instructor como uma porta para o mundo offshore. E uma mega porta. Mas não me vejo e nem quero fazer isso pra sempre - apesar de derreter quando os "alunogros" elogiam e gostam da minha aula, adoram minha didática e metodologia e vêem realmente o meu prazer em dar a aula. Meu ego vai nas alturas mas lá dentro de mim eu bem sei que isso é apenas o meu compromisso profissional comigo mesmo, my own ISO, meu controle de qualidade no que eu estiver fazendo.

Hoje, 9 embarques depois, ver que de 35 matriculados, tenho cerca de 95 (sendo que somos 120 a bordo), é maravilhoso. Graças a Deus alcancei todas as metas (média de 92% por embarque) e tenho alunos sensacionais. Mas tá faltando algo... Tá faltando aquela paixão e satisfação que vejo há 29 anos escancarado no rosto da minha mãe. A alegria de estar dentro de sala de aula, dentro da escola, de ver a evolução do aluno, da cartinha que recebida, de ver os alunos dela, hj, formados e bem de vida. Isso, apesar de me orgulhar dos meus alunos falando e entendendo inglês e comentando que o que foi dado em sala de aula foi útil...eu acho que não terei.

Aos meus professores e àqueles que fizeram diferença enorme na minha vida, à esses sim meu sincero e enorme agradecimento e desejo de coisas boas sempre. Entre estas, melhor salário, melhores condições de salário e respeito...muito mais respeito de todos nós.

À minha mãe, melhor educadora não há. Exemplo de profissionalismo e, apesar de nunca ter tido aula com ela, melhor professora do mundo.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Chopper 11 hours out!


Sabe aquela sensação de dever cumprido? Então...é por aí.

Depois de 14 dias intensos, de muito trabalho, pouco sono e privacidade quase zero, após um longo banho, sentar na cama e ver a mochila pronta pro desembarque: não tem preço.


Os dias de menino darão lugar aos dias de menina novamente. Menino sim, porque é o que eu viro a bordo. A gente até chega bonitinha: unha feita, cabelo escovado e balangandans que duram tempo suficiente para o vôo e trocar a roupa pra colocar aquela que será a vestimenta nos próximo 14 dias: o macacão. Pelo menos tem em 2 cores: vermelho (para atividades na área) e azul (para trabalho e reuniões dentro do casario). Sou uma pessoa que vive de rabo de cavalo e as pregadeiras e xuxinhas de cabelo são o máximo de feminilidade que hoje, depois de 14 dias, eu tenho. Ah, além da minha marca (já) registrada na sonda: Victoria Secrets - morango com champagne - já me perguntaram qual era o Victoria Secrets que usava porque era muito cheiroso e queriam dar de presente para namorada (ainda me pergunto se isso é bom ou ruim, pq vai que né?), já falaram que sabem exatamente quando passei nas escadas porque o meu cheiro fica.

Na primeira semana somos em até 10 mulheres rodando na sonda, no meio de 110 - 120 homens. Na segunda semana, somos reduzidas a 4 e, no meu turno de trabalho, só tem eu pra cima e pra baixo no meio dessa homarada toda. São todos ogros. Sem exceção. Mas dá pra rir bastante e ver que eles me respeitam: com palavras e ações.

Se tenho problemas com eles? De jeito nenhum. Aqui é o seguinte: eu falo, eles ouvem e ponto final. Graças a Deus sempre tive um bom relacionamento com todos eles que tem um respeito enorme por mim (se não tem disfarçam super bem). Eles me ouvem, pedem minha opinião, minha participação e falam besteira. Quando a besteira é grande demais, pedem desculpa.

Trabalhar embarcada é saber que todo mundo vai falar de você e você vai falar de todo mundo. Aqui se trabalha, come e dorme...e como diversão: "compartilhamos" fatos da vida alheia. Se casou, separou, vai casar, engordou, viajou...não interessa: todos sabem. Deal with that. Dê dinheiro pra peão, mas não dê - em hipótese alguma - intimidade.

Esses dias eu chamei atenção de um grupo que rabiscou a tabela que tinha feito do campeonato de ping pong (sim, um abençoado resolveu fazer uma mesa de ping pong que, instalada no Coffee Shop - ponto de encontro da peãozada para um café a cada 3h - e eu resolvi agitar um Campeonato - deu super certo). Cheguei, entrei, vi e soltei o verbo com todo mundo. 5min depois, já no refeitório entra 1 deles perguntando como eu consigo deixar aquele monte de homem caladinho, sem nenhuma reclamação. Logo depois, os que rabiscaram vieram me pedir desculpa pq não sabiam que eu tinha feito, pois, se soubessem, jamais teriam rabiscado porque eu sou muito gente boa.

Ser Teacher a bordo é ser multiuso: dar aula, preparar a aula, fazer relatórios, ser a secretária, fazer a divulgação, ser diretora, dar ordens, traduzir, se dar bem com todo mundo e ser psicóloga...aaah, a psicologia a bordo. Confesso que de todas as atividades que exerço, a psicologia a bordo para peão me encanta e me assusta. A máxima de que os brutos também amam, super existe. Já tive homem reclamando do chefe, chefe reclamando do funcionário, supervisor chorar porque a esposa não confia nele, como se comportar com um brasileiro (temos muitos Expats a bordo - Índia, Austrália, Inglaterra, Escócia, Irlanda, França, USA, Thailandia, Indonésia), se deve abraçar ou chegar perto, crise de identidade, muita lágrima e muita, mas muita gargalhada com as coisas surreais que eles falam.

São 14 dias aqui e cada pessoa faz diferença. Do gerente a quem lava os pratos. Acho que um dos motivos para os 9 embarques (até agora) terem dado certo, foi o fato de que dentro da sala de aula, eu sou a Teacher e eles os alunos, ganhe R$1.000,00 ou R$35.000,00. Foi ter deixado muito claro que, como Johnny Castle disse à Baby em Dirty Dancing: "meu espaço. seu espaço. você só entra no meu espaço se eu te convidar e der permissão". E assim a coisa tem seguido.

São 11aulas (em média) por dia. Meu dia começa as 7am mentira, começa as 6:15am quando acordo, tomo banho, café e vou pra sala de aula e vai até as 9:30pm, quando termina a última aula. Eu não tenho tempo de nada e sempre sou a última a saber das fofocas a bordo - seja profissional ou financeiramente (eu realmente não faço a menor questão de saber da vida alheia. Quando eu fico sabendo de alguma coisa, todo mundo já sabe e sentam pra me explicar. Mal dou conta da minha e já expulsei 2 da sala que vieram falar mal dos outros - e o tiro meio que saiu pela culatra porque na cabeça deles  por não gostar de fofoca eu não falo nada, sendo assim, eles continuam me contando tudo e eu absorvendo nada). Mas chegar agora, olhar no relógio, ver que são 22h e eu já estou na cama, com tudo arrumado e toda a documentação (uma baboseira sem fim relatórios, reports, assessments) já foi toda enviada e agora é só esperar pelo vôo, realmente não tem preço.

Agora é tentar dormir até porque, apesar do banho longo e de todo o cansaço que chega com força no domingo antes do desembarque, a TPD (tensão pré desembarque) vem que vem que vem com tudo e me impossibilita de dormir.

Anyway, just have to keep myself calm and wait for the chopper*.


*Chopper = helicóptero

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Merda Feliz!

Hoje, 27 de setembro, é dia do Turismólogo. Ou seja, meu dia. Dia do Bacharel em Turismo. Parabéns pra mim. Amo o Turismo e não vejo a hora de voltar pra ele. 

Desde que entrei na faculdade, em 2000, sempre estagiei,trabalhei e fiz tudo na minha área. Cresci profissionalmente no Turismo e sei que tenho um nome a zelar. Sempre tive um prazer imenso em proporcionar uma boa viagem, estadia, dar dicas, cuidar, planejar do evento e infra estrutura urbana.

Ano passado, quando voltei da Holanda, depois de ficar cerca quase 3 anos sem carteira assinada na minha área (em 2008 quando voltei do intercâmbio de Aupair, em 10 dias estava trabalhando no local onde queria, na minha área), voltei pro Turismo - cheia de idéia e peito aberto. Peito e bolso também. Um dos motivos por ter voltado ao Brasil era exatamente o fato de não poder trabalhar e tava "precisada" de trabalho, escala, rotina e tudo mais. 2 meses depois estava trabalhando como Recepcionista Bilíngue num hotel 5 estrelas - hotel esse bem famoso na terra dos moinhos.

Apesar de nunca ter sido muito fã da escravidão hotelaria nos tempos de faculdade (nem das aulas, nem dos estágios e muito menos dos trabalhos), era o que tinha e a equipe era legal e, para o meu curriculum seria ótimo (pois voltando à Holanda, tendo tal hotel como experiência contaria como ponto na hora de correr atrás de um emprego por lá). Acontece que a química não rolava. Não por conta do hotel, mas por conta de satisfação mesmo: financeira e profissional. O salário menor que e a allowance de Aupair que eu recebia na Bélgica e as horas trabalhadas eram mais que o dobro (na Bélgica eu trabalhava 20h/semana, no máximo 25h). A escala 6x1 era cruel. Trabalhar 8:20h/dia de pé, sem poder sentar ou se escorar, de salto e sorrindo, tendo ao meu lado alguém sem experiência em nada no Turismo e na vida era demais para esta pessoa que já tinha, na época, 28 anos, graduação, especialização, experiência na área, 3 línguas no bolso e expectativa zero de crescimento.

Até que num dia bem triste, alguém que você gosta muito e admira, mas não vê há pelo menos 2 anos, vira e te fala: você merece mais. Muito mais. Acredite no seu coração, lute e vá atrás. Coisa de Deus!

E assim foi. Meu coração queria um trabalho bom: que me desse tempo e um bom dinheiro. Não precisa muito, mas algo suficiente para que eu pudesse pagar minhas contas, comprar minhas coisas, guardar um pouco e me dar certos luxos (a.k.a.: visitar o Querido e ter tempo livre pra fazer o que eu quisesse qualidade de vida). Sendo assim, 9 meses depois de entrar na hotelaria, lá estava eu fazendo treinamento em Macaé, começando minha vida offshore - desisti da satisfação profissional e fui ser rica - obedecendo minha mente e coração.

Minha mãe é Pedagoga e cresci dentro de escola e ouvindo: minha filha, não seja Professora. Pois bem, cá estou eu: sou Teacher. Quer dizer, sou English/Portuguese Instructor: dou aulas de inglês e português em plataformas de petróleo. Tenho uma escala de 14x14 - 14 dias embarcada e 14 dias em casa fazendo o que me der na telha (os dias embarcada até passam rápido - pelo menos pra mim - dou aulas de 7am às 9:30pm com pausa pra almoço e jantar, mas os dias off simplesmente voam) e um bom salário.

Se eu gosto? Gosto. Se quero ser isso pra sempre? Não. Não tenho tesão em dar aula, prazer profissional. Aprendi a gostar; o que é bem diferente. Offshore não é pra vida toda. É bom, mas é ruim. Mas Deus concedeu o desejo do meu coração, o que eu pedi, Ele me deu. Fiel que só Ele.

Nunca dei aula na minha vida (e nem quero dar) e, por conta disso, o treinamento que tive foi essencial para me dar uma idéia de como controlar uma turma e passar informação. Dar aula para adultos - em grande maioria peão (isso mesmo, ogro!!), ou para alunos que mal terminaram o segundo grau em português (tem de tudo offshore) e/ou gringos que falam apenas o inglês e sofrem o mesmo tanto ou mais para aprender português - em alto mar, pessoas que trabalham 12h/dia e têm aula depois do horário de trabalho, sempre pressionados, em alto risco de acidente...não é fácil. É um grande desafio. Mas com muita gargalhada a gente chega lá.

Vê-los chegando e compartilhando alguma coisa que entenderam na língua que estão aprendendo, ou algo que aconteceu no período em que estiveram em casa ou que conseguiram falar é mega gratificante. Me faz acreditar que meu objetivo - ensinar - foi alcançado.

Dia desses durante uma pausa pro lanche, no Coffee Shop (coffee shop é onde rola toda e qualquer a fofoca, muita gargalhada, sobre tudo e sobre nada no mundo offshore regado de muita comidinha que só engorda), um aluno veio me falar que conversando com o Supervisor sobre um probleminha que havia acontecido, o cara falou pra ele que "- aaah, it's ok, shit happy!". Ele ficou feliz pq entendeu: "poxa, shit é merda. Happy é feliz. Conclusão: merda feliz. Poxa, meu Supervisor tá falando que deu merda mas tá tudo tranquilo: merda feliz." E lá foi ele dar o feedback pro outro setor e disse: "o supervisor disse que shit happy". Até que um abençoado que fala inglês virou e perguntou: que raio de shit happy era aquela e ele explicou toda a saga novamente. E foi explicar e todos do tal setor caíram na gargalhada (pessoal de marinha fala inglês) e explicaram que o Supervisor dele não disse "shit happy" e sim "SHIT HAPPENS" e explicou o significado da expressão.

Eu sei que como Teacher não posso rir de um aluno, mas na hora que ele começou a me contar, disse shit happy e a conclusão do significado da expressão que ele mesmo criou, eu dei altas gargalhadas (como eu não sou Educadora por natureza, rio mesmo! péssimo exemplo de professora eu sou!).

O gerente da plataforma, um ex-fazendeiro inglês, tem aulas de português e sofre, xinga e bate na mesa todas as vezes que vamos conjugar qualquer verbo. Já o Capitão, um americano do Texas que é a cara do Visconde de Sabugosa, disse que só iria às aulas caso eu prometesse que não entraríamos em conjugação de verbo. Promessa não feita e aluno assíduo - reclamando 1000 vezes, como hoje, quando descobriu tenho, tem, temos e têm era o mesmo verbo.


Trabalhar no meio de muita água, vestindo um macacão que te deforma, dividir o quarto com outras 3 pessoas (e uma que ronca absurdamente na cama debaixo nesse exato momento) e o banheiro com 7 mulheres, viver perigosamente (hello, estamos falando de helicóptero, plataforma de petróleo, gases...), numa bomba relógio: é uma shit.


Mas saber que Deus é perfeito e que foi Ele que concedeu o desejo do coração e me presenteia com um visual lindo praticamente todos os dias, me deixa muito happy