Eu sou uma pessoa orgulhosa! Orgulhosa no bom sentido. Tenho orgulho de onde eu vim, o que conquistei, de como foi difícil, das lágrimas, sorrisos, explosões de sentimentos. Tenho orgulho de ter ser da Baixada Fluminense e ser quem eu sou hoje! Adoro trabalhar - adicione a isso a rotina de ir pro trabalho e reclamar dele também. E faço questão de ter meu dinheiro e fazer parte das contas do fim do mês. Faço isso desde os 17 anos.
Dito isso, vamos ao post.
Quando Querido disse que daria entrada no visto, lembro-me claramente que a primeira coisa que eu falei foi "E o meu emprego?". A resposta - dele - foi simples: "Aaaaah, você arranja um aqui". Isso dito, emoções a parte, papelada, dinheiro indo embora, férias, chegada, frio, papelada (aqui) toda ok, chegou a hora: solliciteren!
O prazo que geralmente temos pra toda papelada (identidade, sofi nummer, permissão de trabalho e blablabla) ficar pronta é de até 3 meses. Considerando que já fui Aupair nas bandas de cá, devidamente registrada na prefeitura, documentação em ordem e muita boa vontade e excelente atendimento que tivemos no IND, em 20 aqui eu já estava apta pra abrir conta em banco, fazer o seguro saúde e apta pra trabalhar. Isso tudo porque tivemos as festa de final de ano entre minha chegada e fomos agendados pelo próprio IND pra 20 dias depois.
Antes de chegar aqui eu tinha previsto que só poderia começar a trabalhar depois de 3 meses. Sendo assim, não faria muita pressão - eu sou o meu pior inimigo nesses casos - e viveria a vida estudando e caçando emprego nesse período. Mas, como disse acima, aconteceu o contrário. Sendo assim, no mesmo dia que cheguei em casa com o beslissing comecei a aplicar para as vagas em sites que já vinha visitando e sabia como que estavam disponíveis, de acordo com meu perfil.
Uma das coisas que minha mãe me falava era: "filha, por favor, self control enquanto você não arrumar um emprego" porque eu sou dessas que surta - apesar de nunca ter ficado mais de 2 meses desempregada, nunca fui demitida e tive ótimos empregos na minha área e fora dela.
A primeira semana de nãos até que desceu bem. A segunda nem tanto. Na terceira os primeiros sentidos de preocupação chegaram. Refiz o maldito motivatiebrief, revi as opções de trabalho. Os nãos eram explicados por "seu holandês é muito bom, mas não é fluente". Era verdade e não tinah nada que pudesse fazer a respeito disso. 1 mês e pouco de vida nova na Holanda e, por mais que falasse apenas em holandês com Querido, família e na rua, não seria o suficiente. Conversando com algumas amigas e lendo blogs de quem teve o mesmo processo que eu, 1 coisa apenas se confirmava: primeiro estuda e arrasa no holandês e depois procura emprego. Pelo menos 6 meses dedicados ao estudo da língua. A única coisa que pensava era: "Eu? 6 meses? Só estudando? Sem trabalhar? Sem conhecer outras pessoas e fazer a minha vidinha aqui? Sem meu próprio e suado dinheiro? Mas de jeeeeeeeeeito nenhum!" Que algo fique claro aqui: eu não tenho nada contra quem faz/opta por isso. Mas pra mim, por motivos ditos lá em cima, não rola. Mas, sem subsídio do governo, a última coisa que EU queria era dar de presente mais uma conta pro Querido. Oi, orgulho!
Visitei o primeiro uitzendbureau - agência de trabalho - e o presente que ganhei foi: "ótimo CV, mas na sua área você precisa falar holandês fluente - apesar de já falar muito bem, juntamente com o inglês, português e arranhar bonito no francês e italiano - mas, sem o holandês, o que eu tenho disponível pra você aqui é uma vaga de Tiazinha do Banheiro para antes, durante e depois de uma feira internacional que vai ter aqui. Topa?
Saí da agência sem sentir nada. A única coisa que pipocava na cabeça era: "eu sou melhor que isso, eu sou melhor que isso, eu sou melhor que isso. No Brasil, aqui e/ou em qualquer lugar."
Lembro-me de ter lido muito tempo atrás no blog da Line algo que ficou marcado pra quando eu chegasse aqui; era algo do tipo: "não se contente com pouco, se você se limitar com pouco, você terá pouco". Fazia um dia lindo, com muito vento e antes das lágrimas caírem, ao andar pra casa, o vento tirava de mim.
O tempo passou, os nãos invadiam meu inbox, o meu dinheiro da recisão acabou e minha necessidade de fazer algo, me sentir útil só aumentava. Inventava desculpas pra mim mesma, principalmente quando acordava e via neve do lado de fora do tipo: pelo menos estou dentro de casa com essa neve e frio todo. Mas no fundo eu não me convencia.
Até que no início do mês passado surgiu não só uma, mas duas vagas de Kamermeisje (camareira) em hotéis aqui perto. Lendo e ouvindo sobre como tá difícil arranjar um emprego na Holanda - para holandeses e expats - pensei, aaaaaaah, a Cunha 1 é Thuisverzoging ("faxineira") e já foi kamermeisje, a Cunha Caçula também. Ser camareira não mata ninguém e posso fazer isso até achar algo melhor, na minha área e $$. É part time, vou chegar em casa e aplicar pra outros empregos. Convencida e necessitada (não de dinheiro, não mesmo, mas de fazer algo), escolhi o mais próximo (ambos pagavam a mesma coisa/hora) e fui. Fiquei 2 dias apenas. No primeiro dia, além de chegar em casa acabada eu só fazia chorar. Eram 20min da estação até o hotel + 6min de trem até aqui em casa e eu só fazia chorar. Mais uma vez o pensamento vinha: "eu sou melhor que isso, eu sou melhor que isso, eu sou melhor que isso." Dessa vez adicionado de: "eu não preciso passar por isso! Eu estudei pra não precisar fazer isso! Estudei pra ser alguém na vida e trabalhar com meu cérebro".
Minha mãe, que sempre me incentivou a fazer e correr atrás pra me tornar uma excelente profissional, me apoiou no início mas escondeu que a pressão tinha subido por me ver me submetendo a algo que ela prometeu não ser quando tinha 12 anos e desde os 9 trabalhava em casa de família. Hoje, Pedagoga, com especialização, pós graduação, começando a segunda agora, aos 53 anos, ela não queria isso pra filha dela. E com ela no Skype, joguei pro alto o hotel. Louca né?! Né! Oi, orgulhosa?
Mais uma vez repito: nada contra quem trabalha. Pelo contrário. Desde a escola sempre tive um respeito absurdo pelas faxineiras (eu vivia na escola, lembra? filha da pedagoga!) e no hotel, só dava as minhas gargalhadas com as camareiras, fazendo bagunça - geralmente - onde não podia. Mas enfim, EU não nasci pra isso.
Mas aí Deus...aaaah Deus é tão bom! Mas tão bom que ouviu o desejo do meu coração e fez a obra completa. Claro que no tempo dEle, do jeito dEle, dando-me o que é melhor!
Acabei de chegar do meu primeiro dia de trabalho, com contrato assinado, sem ser por agência de trabalho - caçando vagas na internet - um salário excelente, queimando os neurônios, na minha área, minha paixão - aviação - perto de casa - quando a primavera resolver chegar do lado de cá, em 25min de bike estarei lá, por enquanto, de ônibus, em 10min estou na frente da empresa - segunda a sexta, horário comercial, falando holandês (olha como pode, meu holandês só melhorou), inglês e quando necessário português, já que, entre os contratos com clientes, existe contrato com Brasil e Portugal. Apesar do frio de 1C ao sair de casa hoje, o sol já brilhava - e assim ficou o dia todo - e a tendência é só melhorar.
Pois é! Eu, brasileira, no dia que completei 3 meses de Holanda, estava empregada! Na verdade tive duas oportunidades: aviação e hotelaria - Recepcionista Líder no mesmo hotel onde trabalhei no BR, só que aqui.
Mas, como a aviação confirmou e o hotel - via uitzendbureau (odeio esses caras!) - não ligou nem pra dizer que não rolou...prefiro seg/sex em horário comercial do que ser escravo da hotelaria, novamente (mas caso a aviação não tivesse aparecido, hotelaria seria, sim senhor!)
Não venha me dizer que eu dei sorte porque eu não dei sorte! Sorte é car&%#o!!!
Eu corri atrás, liguei, enchi o saco, escolhi, fiz um bom CV, melhorei o motivatiebrief e acreditei em mim: minha linha de corte foi a minha realidade profissional. Oi, orgulhosa!?
Agora é dedicação ao trabalho, ler ler ler, estudar estudar estudar todos os formulários possíveis da empresa, achar um curso noturno de holandês e welcome back à classe dos trabalhadores!
Enfim, leu esse testamento? Agora me julgue se quiser.
Pra bem ou pra mal. Tô bem feliz e orgulhosa de mim mesma!