segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Chopper 11 hours out!


Sabe aquela sensação de dever cumprido? Então...é por aí.

Depois de 14 dias intensos, de muito trabalho, pouco sono e privacidade quase zero, após um longo banho, sentar na cama e ver a mochila pronta pro desembarque: não tem preço.


Os dias de menino darão lugar aos dias de menina novamente. Menino sim, porque é o que eu viro a bordo. A gente até chega bonitinha: unha feita, cabelo escovado e balangandans que duram tempo suficiente para o vôo e trocar a roupa pra colocar aquela que será a vestimenta nos próximo 14 dias: o macacão. Pelo menos tem em 2 cores: vermelho (para atividades na área) e azul (para trabalho e reuniões dentro do casario). Sou uma pessoa que vive de rabo de cavalo e as pregadeiras e xuxinhas de cabelo são o máximo de feminilidade que hoje, depois de 14 dias, eu tenho. Ah, além da minha marca (já) registrada na sonda: Victoria Secrets - morango com champagne - já me perguntaram qual era o Victoria Secrets que usava porque era muito cheiroso e queriam dar de presente para namorada (ainda me pergunto se isso é bom ou ruim, pq vai que né?), já falaram que sabem exatamente quando passei nas escadas porque o meu cheiro fica.

Na primeira semana somos em até 10 mulheres rodando na sonda, no meio de 110 - 120 homens. Na segunda semana, somos reduzidas a 4 e, no meu turno de trabalho, só tem eu pra cima e pra baixo no meio dessa homarada toda. São todos ogros. Sem exceção. Mas dá pra rir bastante e ver que eles me respeitam: com palavras e ações.

Se tenho problemas com eles? De jeito nenhum. Aqui é o seguinte: eu falo, eles ouvem e ponto final. Graças a Deus sempre tive um bom relacionamento com todos eles que tem um respeito enorme por mim (se não tem disfarçam super bem). Eles me ouvem, pedem minha opinião, minha participação e falam besteira. Quando a besteira é grande demais, pedem desculpa.

Trabalhar embarcada é saber que todo mundo vai falar de você e você vai falar de todo mundo. Aqui se trabalha, come e dorme...e como diversão: "compartilhamos" fatos da vida alheia. Se casou, separou, vai casar, engordou, viajou...não interessa: todos sabem. Deal with that. Dê dinheiro pra peão, mas não dê - em hipótese alguma - intimidade.

Esses dias eu chamei atenção de um grupo que rabiscou a tabela que tinha feito do campeonato de ping pong (sim, um abençoado resolveu fazer uma mesa de ping pong que, instalada no Coffee Shop - ponto de encontro da peãozada para um café a cada 3h - e eu resolvi agitar um Campeonato - deu super certo). Cheguei, entrei, vi e soltei o verbo com todo mundo. 5min depois, já no refeitório entra 1 deles perguntando como eu consigo deixar aquele monte de homem caladinho, sem nenhuma reclamação. Logo depois, os que rabiscaram vieram me pedir desculpa pq não sabiam que eu tinha feito, pois, se soubessem, jamais teriam rabiscado porque eu sou muito gente boa.

Ser Teacher a bordo é ser multiuso: dar aula, preparar a aula, fazer relatórios, ser a secretária, fazer a divulgação, ser diretora, dar ordens, traduzir, se dar bem com todo mundo e ser psicóloga...aaah, a psicologia a bordo. Confesso que de todas as atividades que exerço, a psicologia a bordo para peão me encanta e me assusta. A máxima de que os brutos também amam, super existe. Já tive homem reclamando do chefe, chefe reclamando do funcionário, supervisor chorar porque a esposa não confia nele, como se comportar com um brasileiro (temos muitos Expats a bordo - Índia, Austrália, Inglaterra, Escócia, Irlanda, França, USA, Thailandia, Indonésia), se deve abraçar ou chegar perto, crise de identidade, muita lágrima e muita, mas muita gargalhada com as coisas surreais que eles falam.

São 14 dias aqui e cada pessoa faz diferença. Do gerente a quem lava os pratos. Acho que um dos motivos para os 9 embarques (até agora) terem dado certo, foi o fato de que dentro da sala de aula, eu sou a Teacher e eles os alunos, ganhe R$1.000,00 ou R$35.000,00. Foi ter deixado muito claro que, como Johnny Castle disse à Baby em Dirty Dancing: "meu espaço. seu espaço. você só entra no meu espaço se eu te convidar e der permissão". E assim a coisa tem seguido.

São 11aulas (em média) por dia. Meu dia começa as 7am mentira, começa as 6:15am quando acordo, tomo banho, café e vou pra sala de aula e vai até as 9:30pm, quando termina a última aula. Eu não tenho tempo de nada e sempre sou a última a saber das fofocas a bordo - seja profissional ou financeiramente (eu realmente não faço a menor questão de saber da vida alheia. Quando eu fico sabendo de alguma coisa, todo mundo já sabe e sentam pra me explicar. Mal dou conta da minha e já expulsei 2 da sala que vieram falar mal dos outros - e o tiro meio que saiu pela culatra porque na cabeça deles  por não gostar de fofoca eu não falo nada, sendo assim, eles continuam me contando tudo e eu absorvendo nada). Mas chegar agora, olhar no relógio, ver que são 22h e eu já estou na cama, com tudo arrumado e toda a documentação (uma baboseira sem fim relatórios, reports, assessments) já foi toda enviada e agora é só esperar pelo vôo, realmente não tem preço.

Agora é tentar dormir até porque, apesar do banho longo e de todo o cansaço que chega com força no domingo antes do desembarque, a TPD (tensão pré desembarque) vem que vem que vem com tudo e me impossibilita de dormir.

Anyway, just have to keep myself calm and wait for the chopper*.


*Chopper = helicóptero

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